Textos

Grávida de sete meses, a caminho do escritório.
Que óculos são esses?
Oras, última moda, à época!... rs
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Poeta e Compositor Maurício Tapajós: minha saudade


Em agosto de 1980 descobri-me grávida de quase três meses. Marido e eu, desempregados. O jeito foi arranjar um emprego às pressas, por obra e graça da minha cunhada que trabalhava na FUNARTE e conhecia diversos artistas. Amiga de Maurício Tapajós, falou-lhe de mim, sem referenciar a gravidez. E, lá fui eu, pronta para escondê-la. Enfeitei-me toda para a entrevista e recebi proposta para iniciar o trabalho naquele mesmo dia. Assustei-me pela pressa do meu chefe, mas aceitei imediatamente! Confesso que não houve tempo para estranhar aquela cabeleira despenteada, a emoldurar uma face robusta enfeitada por bigode e barba escuros, nem aquele jeitão descontraído ao andar, sempre com muitas folhas de papel na mão e um largo sorriso na boca.

Maurício Tapajós era arquiteto e um dos mais ativos compositores brasileiros entre os anos 1970-1990. Nascido numa família de músicos foi parceiro de Aldir Blanc, Hermínio Bello de Carvalho, João Nogueira, Paulo César Pinheiro e muitos outros grandes nomes do samba brasileiro. Em 1977 fundou com Paulinho da Viola, Edu Lobo e João Bosco, a Sociedade de Artistas e Compositores Independentes (SACI), a empresa para a qual fui contratada.

Escondi a gravidez o máximo que pude. Todas as tardes, após o almoço, fulminava-me um torturante sono, como nunca sentira na vida. Mas, permanecia firme. Meu único problema era o gerente do escritório, do qual não me lembro o nome. Permanecia o tempo todo atento a cada gesto proveniente do meu estado gravídico. Evitava qualquer tipo de conversa que não referenciasse o trabalho, porque se inquirida fosse, não lhe saberia mentir. E jogaria o emprego fora. Naquela época as empresas costumavam assinar as carteiras dos contratados somente três meses após o início das atividades. Forçoso ultrapassar aquele período incólume. Por sorte e destino, aquela gravidez me trouxe tanta felicidade, mas tanta, que nem sequer enjoava. Contudo, o neném, às vésperas de completar cinco meses, ditava algumas modificações no meu corpo. A cintura perdera pouco a pouco os contornos demarcados que sempre me ressaltaram os quadris e os seios intumescidos anunciavam uma fêmea diferente.

Quase ao final do prazo de experiência, no afã de disfarçar o súbito ganho de peso, confidenciei ao gerente que iniciara um regime. Assim, no horário do almoço, apresentei-lhe uma caixa com uns flocos que deveriam ser adicionados à água.

- Que bom! Vou emagrecer! – cantarolei a sorrir, após beber aquela coisa horrosa sem quase lhe sentir o gosto. Triste desdita! Foi o que bastou. Senti um mal estar impetuoso e corri para o banheiro. Regurgitei aos borbotões o que não fizera até então. Estragara tudo! Ao sair do banheiro, trêmula e com os olhos vermelhos, ainda sufocada, todas as meninas dos olhos do gerente gritaram-me: - Eu sabia que era gravidez! Mas, num gesto de humanidade acudiu-me e diante da face lívida que persistia ofereceu-me dinheiro para o táxi e mandou-me para casa. Agradeci aos céus, por não enfrentar meu chefe naquele estado.

No dia seguinte faltou-me coragem para ir ao trabalho. Envergonhava-me por ter escondido algo que, naquele momento, era a razão da minha vida! Foi então, que minha cunhada me socorreu, mais uma vez, pois revelou a verdade a Maurício Tapajós. Eu não queria mais aparecer naquele escritório, mas a necessidade financeira imperava.

Na manhã seguinte aprontei-me e segui para o Leblon, bairro aonde se instalava a SACI. Entrei no escritório, sorrateira, tal uma criminosa. Suava frio... apreensiva. Sala vazia. Retirei a coberta da máquina de datilografia elétrica e uma folha branca de papel, com alguma coisa escrita em letras grandes e amarelas, saltou-me aos olhos. Um frio percorreu-me a espinha e acredito que até meu neném sentiu-o, naquele momento.

Trêmula, li o papel que me oferecia o sorriso por inteiro do meu chefe: - Parabéns, para a grávida mais linda do mundo! Assinado... Maurício Tapajós.

Sorri aliviada. Depois, um choro emocionado nasceu do meu coração.

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Maurício Tapajós assinou minha carteira em 1º de outubro de 1980, como secretária da SACI. Em 1º de junho de 1982 convidou-me a ocupar o cargo de primeira secretária da Associação de Músicos, Arranjadores e Regentes (AMAR). Nos dois empregos permaneci até 30 de novembro de 1982, quando por intrigas de um gerente (não aquele anterior) fui demitida. Maurício Tapajós não compareceu no dia em que assinei minha demissão. Alimento a certeza de que não teve coragem de fazê-lo. Homem de caráter ímpar respeitava-me muito, como sua secretária e como ser humano.

Anos depois soube da sua morte, que ocorrera em 21 de abril de 1995. Creio que tenha sido traído pelos problemas de saúde apresentados desde aquela época e que num segundo lançavam aos píncaros sua pressão arterial, sem jamais abafar o sorriso daquele rosto, frente à minha atitude assustada.

Hoje descobri, por acaso, um site em sua homenagem, criado por seus filhos Márcio e Lúcio, naquela época ainda meninos. Ouvi sua voz a cantar e relembrei, com saudades, das vezes em que meu querido chefe chamava-me à sua sala para mostrar-me, ao violão, a música recém criada.

Então, nasceu esta página, que deixo registrada como uma singela homenagem a Maurício Tapajós, um músico honrado que lutou pelo reconhecimento dos direitos autorais da sua geração e abriu caminho para as lutas que hoje persistem.

Abaixo, a letra de "Pesadelo", uma das músicas mais importantes de Maurício Tapajós, em parceria com Paulo César Pinheiro, criada à época da ditadura. Perceba-se a profundeza de cada verso. Interpretação de Eduardo Gudin, Paulo César Pinheiro e Márcia no show "O Importante é que a Nossa Emoção Sobreviva".

PESADELO
Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro


Quando um muro separa
Uma ponte une
Se a vingança encara
O remorso pune
Você vem me agarra
Alguém vem me solta
Você vai na marra e ela um dia volta
E se a força é tua ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte
Olha o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós...
Olha aí
Você corta um verso e eu escrevo outro
Você me prende vivo e eu escapo morto
E repente... olha eu de novo
Perturbando a paz exigindo o troco
Vamos por aí eu e o meu cachorro
Olha um verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós....
Olha aí
O muro caiu, olha a ponte
Da liberdade Guardiã
O braço do Cristo – Horizonte
Abraça o dia de amanhã
Olha aí

À época da sua morte, alguns companheiros manifestaram-se

Fonte de pesquisa: http://www.amar.art.br/entrevistas/entrevista_03.htm


- “A mais vil das manobras dos sórdidos que se opunham à nossa luta pela moralização do sistema do direito autoral passava pelo jogo sujo das insinuações rasteiras [...] Maurício também não escapou de algumas aleivosias. Entretanto, seu atestado de pobreza, que contrasta com a riqueza de seu coração e de seus ideais, é a afirmação de sua integridade pessoal, do quanto saiu com as mãos limpas numa guerra que costuma encher de vis 30 dinheiros as mãos de algumas ervas daninhas que brotam em nosso campo de batalha. Ao contrário de tantos que se enriqueceram à sombra de “ideais”, Maurício morreu pobre e endividado, mas cheio de sonhos que eles nunca tiveram a grandeza de sonhar” (Herminio Bello de Carvalho).

- “A data de sua morte é exemplar: como no velho samba, morreu a 21 de abril. Foi traído, mas não traiu jamais” (Aldir Blanc).

- “Quero me recordar dele assim: rindo debochadamente dos adversários vendidos, dos farsantes, dos fariseus. Prá ele só posso dizer que vou fazer o que ele mais gostava: um samba que o imortalize na boca do povo” (Paulo César Pinheiro ).

Site criado pelos filhos queridos Márcio e Lúcio:
http://www.myspace.com/mauriciotapajos

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Rio de Janeiro, 8 de agosto de 2010 - 2h30
Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 16/01/2012
Alterado em 17/01/2012
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